Dia-a-dia

Carnaval é uma tragédia disfarçada de festa

Renato Russo escreveu a mais perfeita estrofe sobre o carnaval na letra da música perfeição:

“Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais…”

Começou o carnaval. Isso não vale para o carnaval que acontece o ano todo em Brasília. Mas o carnaval mudou muito nos últimos anos. Antigamente as rádios chamavam o carnaval de Tríduo momesco, que significa três dias de momo. Existia as marchinhas que começam a tocar no mês de dezembro, e existia uma delicadeza que ficou meio fora de moda.

Hoje o carnaval parece uma verdadeira tragédia, disputada por celebridades que tiram a roupa só para poder ter 15 minutos de fama (ou até menos nessa época). Carnaval deixou de ser vivido para ser olhado. Os brasileiros podem não ter a consciência social, mas tem o inconsciente a flor da pele.

Por trás dessa festa, que nem 1% dos foliões, como gostam de ser chamados, sabem o que estão comemorando. Afinal, toda festa tem objetivo de comemorar alguma coisa. Triste é ver que é muito dinheiro público investido nessa festa só para alegrar os pobres. Os mesmos pobres que depois passam o resto do ano reclamando da falta dinheiro para tudo. Não faço ideia do quanto a cidade de Salvador paga de cachê para os artistas fazerem um verdadeiro circo. Dinheiro que poderia ser investido para melhorar bastante a educação de lá que está precisando, assim como qualquer outra no Brasil.

Impressionante é ver a quantidade de policiais, médicos e ambulâncias disponíveis nesta festa. Onde estavam esses funcionários o tempo todo? Quantas pessoas morrem em hospitais em vários lugares do país? Quantas pessoas são assaltadas todos os dias? Se alguém já assistiu uma vez o Brasil Urgente na Band sabe que falta muito no país.

Será mesmo que os vendedores de churrasquinhos e os catadores de latinhas vivem um ano inteiro só com a renda do carnaval? Vamos ser sinceros com nós mesmos. Vendedores de bebidas alcoólicas e fabricantes de camisinhas que realmente faturam bastante com essa época.

Ninguém deve pensar o quanto o governo gasta com tratamentos para os feridos nas festas, mortes nas estradas, jovens grávidas e coquetéis para tratamento de DSTs.  Estamos muito ocupados “pulando”.

“Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção…”